quinta-feira, 16 de julho de 2009

A MÃE DE MACHADO DE ASSIS * * * * * MARIA LEOPOLDINA MACHADO DA CÂMARA - Parte I

Segundo filho do casal Estevão José Machado e Ana Rosa da Câmara, Maria Leopoldina nasceu no dia 7 de março de 1812, na cidade de Ponta Delgada, Ilha de São Miguel, nos Açores. Portanto, a mãe de Machado de Assis era branca e não negra como afirmaram alguns biógrafos. O sempre bem informado Augusto Meyer chegou mesmo a declarar que ela teria olhos azuis, como a maioria das mulheres de São Miguel. Outro erro muito comum que se costuma atribuir à biografia de Maria Leopoldina é alegar que ela era lavadeira. Isso é uma grande bobagem, uma vez que no século XIX cabia apenas às escravas esse tipo de serviço. Não existiam lavadeiras assalariadas. Talvez ela cozinhasse, engomasse, bordasse, fizesse trabalhos de costura e até mesmo lavasse roupa uma vez ou outra, ajudando nas tarefas domésticas, mas daí a dizer que esta era a sua profissão vai uma grande diferença. Há de se ficar bem claro que Maria Leopoldina não era escrava, mas uma pessoa livre, que vivia como agregada na Chácara do Livramento, onde ela era muito estimada pela proprietária, dona Maria José.

E como ela teria chegado à Chácara do Livramento?

Nas primeiras décadas do século XIX, houve uma grande emigração de açorianos para o Brasil. Isto se deu por dois motivos básicos. Primeiro porque, naquela época, a população existente nas ilhas era extremamente pobre, não havia alimentos para todos e muitos foram obrigados a abandonar suas famílias para não morrerem de fome. Segundo, porque a Inglaterra passou a colocar uma série de empecilhos para dificultar cada vez mais o tráfico de escravos africanos, chegando mesmo a perseguir os navios negreiros. O rendoso comércio de negros já não era mais o mesmo e a saída encontrada foi buscar “trabalhadores livres” açorianos para substituir a falta de mão-de-obra na lavoura. Isto porque havia uma lei que não permitia o tráfico de escravos, mas autorizava o transporte de açorianos nos mesmos navios negreiros, quase sempre em condições desumanas. As pessoas se amontoavam feito animais em porões fétidos, na mais absoluta falta de higiene, e assim atravessavam o oceano que parecia não ter mais fim. Esse modo de comércio transformou-se numa alternativa rendosa para os traficantes. Quem estivesse interessado em contratar algum trabalhador desembarcado no Brasil, pagava ao capitão do navio a quantia estabelecida por ele, ou seja, o valor da passagem. Não se tratava, portanto, de uma compra simples como era feito com relação aos escravos e, em teoria, o trabalhador açoriano não pertencia a ninguém. Todavia, era uma liberdade simplesmente no nome. O contrato estabelecido é que ele teria de trabalhar para o senhor até saldar sua dívida, que, em muitos casos, durava a vida toda. Inúmeras açorianas caíram na prostituição e fica muito evidente que a situação desse emigrante não era em nada diferente que a de um escravo.

Acredita-se que Maria Leopoldina tenha vindo para o Brasil numa dessas levas de açorianos, espremida como gado num navio negreiro.

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